quinta-feira, 23 de março de 2017

svetlana

svetlana
aquece-me

criva-me
o peito de balas

estalinegrado '43

a mão fria da morte espremia-me os últimos suspiros de vida svetlana olhou-me através da mira e aqueceu-me com balas no peito

instante

instável
na medida em que
termina

corda da vida

escalar a corda da vida
no final do percurso
o boom espiritual
de caminho um ser
iluminado, apoiado
por pequenos comprimidos sorridentes
oferece-me uma mão cheia de apoio
encontram abrigo no meu estômago
e iluminam a minha mente
já vislumbro a luz no final das cordas
cordas vidas
ssserpentes azuis

tez rubra

quando sentes
sem teres
sentes a tez rubra
de não sentir
e sentes falta
do toque
do tocar
sem teres verdadeiramente sentido
sem teres ido
verdadeiramente
de encontro ao amor

no precipício era o verbo

cair

seriam horas de dormir

seriam horas de dormir
se eu tivesse horas certas para fazer as coisas
mas como não tinha
e eram umas 3 da manhã do dia 6
a luz do sol reflectia intensamente na superfície lunar
senti o calor na pele
arrepiei-me, não pelo calor
mas pela indirecta do sol

segunda-feira, 20 de junho de 2016

sensOMrial

em redor do fogo
o grupo inicia o sopro
breve e rude, primordial
à medida que os corpos aquecem
o crepitar da lenha intensifica-se
fumo emerge das campânulas dos didgis
formam-se silhuetas em redor da fogueira

a música torna-se naturalmente complexa
as danças destes seres de fumo
cada vez mais enérgicas e febris, xamânicas
os seres misturam-se com as labaredas
dançam envoltos em chamas oníricas
no clímax! partem para o infinito num feixe de luz
e os didgis estoiram em todas as cores de íris

de mãos ao alto os aborígenes cingem-se ao agradecimento
arde calmo o fogo sensorial

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

no restolho

no restolho
prostrado aos pés de uma água
que é ardente
ressona, balbucia e baba
o capataz da Herdade dos Afoitos
perdido, depois do taberneiro da Aldeia
lhe ter dado certas "indicações"
que se mostraram ser
a prescrição médica
para o seu mal de coração

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

segredo

vivi nas entrelinhas desses pontinhos no firmamento. tomei por casa a escuridão que existe entre as estrelas.
quando me perguntam o que existe além, eu respondo nada. nada? sim, nada. permaneço calado.

no dorso de lobo já saltei
por cima da ursa maior
mas isso é segredo

domingo, 12 de outubro de 2014

fujo de mim

pela noite dentro
voltas e voltas na cama
preso nesta febre
que me ferve o sangue

amordaçado em mim
nesta carne que não sinto minha
um refugio noutras horas
um refugo por hora

manicómio de quarto!
pele qual camisa de força

à minha mínima distração
aproveito
fujo
fujo de mim

ainda grito
mas já vou longe
já não me apanho

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

caterva

a comitiva aperaltada
altivamente empinada
desfila
rua abaixo
rua acima

na eminente queda
tal o empenho no empinanço

relincham

neste vai e vem
nem se apercebem
que pisoteiam defecações viventes
vigentes agora nas solas
de alguns sapatinhos milenares

que

acenam e chamam
para que estes olhem
fazem gestos obscenos e vaiam

"lá vão os bandidos!"
"lá vão esses filhos da pvta!"

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ainda os mortos

acordei no meio de nenhures
algures nos sonhos mortos
dos que já não são

lúcido encontro conhecidos
que se limitam a tactear
gemendo paredes acima
levando sentimentos escuridão abaixo

buscam a quem se agarrar
no intento da supressão
de "nem que seja uma réstia de vida"
como eles gemem

os de cima os chamam pelos nomes
apelidados de "foste embora"
pese embora que os que chamam
tanto ou mais perdidos
estão como os defuntos

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

criador

crio personagens
chego-lhes sonho
e passo a passo
se afastam de mim

correm já
fugiram
cuido que lhes cheguei sonho a mais...

terça-feira, 17 de junho de 2014

dependurado

pendurado no tecto
esticado
o fio
de vida
nem um movimento
minto,
a janela aberta
a brisa
faz-te dançar
timidamente

objecto, abjecto
grotesta visão
candelabro macabro
não há vida
nesta sala velha
desta velha casa
(escuras)

o teu vulto dança
pareces vivo
mas não estás
"interruptor"
vida!
voltaste meu velho...

sábado, 15 de março de 2014

malabares

intento malabares
demasiadas esferas no ar
não dessedentando a dificuldade
possuem demasiadas cores refractadas
iludido pelas demasiadas
surge o som dos pongues pelo chão
espaçados largamente
em gradual momento se tornam
em episódios curtos de som
levando o espaço
ao silêncio absoluto

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

desmatéria

na matéria turva da multidão
defines-te como um ponto breve
um ponto celeste
ascendente suga-te um feixe de luz
primordial, quente

sob teus pés
revela-se um báratro de fogo
chamas claras e claramente altas
consomem-te a pele
a matéria borbulha
crepita e desvanece
dando lugar a cores
transcendentemente belas
eis a tua desmaterialização

lupus

um lobo de estrelas, um lobo cósmico
atravessa o céu por entre constelações
como um brigue, surcando por entre as calotas glaciares
fá-lo a guardo da noite, o dia já não o aquece
não estás lá, para te beber da luz que o conforta

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

insolvências

insolvências resolvidas de interlúdios lúcidos
postas a nu por pensa-acções reais
interceptadas pelas mentes interligadas
dos neurocirurgiões que me remexem nos lobos

salmoura

o peso da chuva miúda
tão pesado de tão leve
pressiona os torsos
cabeças rente ao chão
vão derramando lágrimas
de salmoura

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

fumos

palavras já não saem destas bocas
apenas fumo
ora negro
por ora branco

fumos peçonhentos
de cheiro a enxofre
que tiram a vida
pois estas bocas pregam
a morte

ecoam pelas colinas mais distantes
passos de figuras distorcidas
disfrutam de centenas de metros
na vertical e no horizonte
algumas formam figuras humanas
que dançam ao som de trovões

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

o anexo, parte um

são três e tal da manhã, e apenas a luz da vela;

a casa fala
range
estala

junto ao ouvido
tosse-me o vizinho

nesta casa ouve-se tudo
como se as paredes
fossem feitas de papel

enquanto tento perceber
se estou a ser observado
sinto um bafo quente
junto à cara
e com mais entusiasmo
agarro a chávena de chá
entre as mãos pálidas
nunca tirando os olhos
do buraco
da fechadura
do anexo

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

alegoria da mutilação interna

mordes-me o coração
o lado esquerdo pulsante
previamente mastigado
uma massa muscular
ensanguentada
desfigurada
mutilada
no leito de febre o repito
mordes-mo!
adagas de gelo
pontuam os ditos
adagas de gelo
pontuam no corpo
as frases febris

sábado, 5 de outubro de 2013

avantesma

acaricio minhas cãs
desfragmento ideias
que volto a colocar
nas gavetas correctas da comoda
deste lúgubre quarto
onde não estando
me atormentas por toda a noite
qual avantesma
ao guardo dos cantos escuros
que a luz da vela
não consegue alcançar
nem ouvir

terça-feira, 1 de outubro de 2013

carne ou terra

cavas O buraco com as mãos
mas dói
se fossem apenas as unhas roídas
mas roeste também os dedos
por dias e dias roeste
sem te aperceberes
acabaste com pequenos tocos
esses pequenos tocos que cavam a terra dura

carne ou terra
qual delas te vai doer?

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

sábado, 21 de setembro de 2013

mulheres semibelas

(e nessa noite adoptaram a forma de mulheres semibelas)

saídos da clareira da floresta
vaguearam as ruas por duas horas
por duas horas vivalma saiu
intimidadas as pessoas que estavam
por aqueles seres extasiados, de cante estridente
nocivos
desde as raízes aos frutos
que lhes pendiam dos cabelos sebentos
de barbas embebidas em lama
vestiam casacos de húmus

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

esplanada

se o cão chegar ao fim da rua sem urinar
a senhora que está a passar não irá procurar na mala
as chaves para entrar na porta nº quarenta
se a criança que corre tresloucada
possuída por um herói qualquer, cair antes de começar a chorar
o mendigo que detém o monopólio à porta da igreja
não irá superar as receitas de ontem
e hoje, também não vou receber um postal teu

terça-feira, 23 de julho de 2013

amendoada

trago teu cheiro amendoado
entranhado no pensamento
acordo e escondo-me
ao ver a miragem
a tua silhueta a meu lado
enterro a cabeça na almofada
e parece que te cheiro
queria poder ficar aqui
a cheirar-te eternamente
enterrado nesta almofada
de cheiro a amêndoa doce

segunda-feira, 22 de julho de 2013

tio carrossel

gira sobre si mesmo
o tio carrossel
seus longos braços
tocam montanhas
mares também

se saia o tio tivesse
seria mulher
em baile de aldeia
se sete saias o tio tivesse
seria da nazaré
e teria percebes
os mais frescos da alvorada

sexta-feira, 19 de julho de 2013

tríade

o contraste das cadeiras
fortes,
com as pessoas sentadas
frágeis,
vultos quase transparentes
de tão fracos
quase a desaparecer

-

leio e releio
uma e outra vez
estou preso a esta página
tenho medo, receio
do que o movimento
me traga,
no texto
a mãe pergunta
filho,
que estás a fazer?
e ele responde
na última linha
mãe,
escrevo a minha carta...

-

come a salada
não posso
a cebola fala comigo
e o tomate?
o tomate posso
é mudo
e a cebola não gosta lá muito dele

o pepino
esse nem olha

sexta-feira, 12 de julho de 2013

em catadupa

a lágrima que em catadupa abandona o canto do olho
para no fim já sem vida ir morrer ao canto da boca

certos sentimentos são salgados e este como se tivesse toda a água dos oceanos
meus lábios rebentados ardem e preferia já não os ter se já não beijam os teus

quinta-feira, 11 de julho de 2013

estuque


ombro deslocado
do pequeno anão
que te vive na massa cinzenta
azul pintada por ele
com balanço corre
e bate violentamente
com o ombro
no interior da casa-crânio
edificada juntos

bate que bate
mas o ombro não retorna
ao seu indivíduo lugar
bate que bate
e o estuque
vai caindo no chão
não havendo ninguém
para o varrer

mesmo que o alguém haja
não há debaixo do tapete
para onde se varra

quinta-feira, 27 de junho de 2013

coro nacional das vozes abismadas

já te debruçaste sem cair?
sobre a ponte dos mil mortos
já ouviste chamar?
as vozes roucas da caterva
já te sentiste tentado?
a experimentar a queda no abismo

não te abismou a ideia?
dá-lhe uma chance
pode ser que a tua voz lhe faça falta
para completar o coro nacional das vozes abismadas

terça-feira, 25 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

pega nele

num espaço intemporal
ali estávamos os dois
no nada
apenas os dois
olhámo-nos
ela segurava o coração nas mãos
e estendendo os braços disse-me

pega nele
não tenhas medo
e chega aqui com o teu

a luz que dele emanava
era ridiculamente forte
deixei de ver, ceguei

sábado, 15 de junho de 2013

horizontes

e os horizontes entre nós
eles estão lá
e por vezes fazem falta
para lembrar
que o espaço é uma ilusão
quando se ama assim

quarta-feira, 12 de junho de 2013

beijinhos

pequenos gominhos
de fruta fresca
sumarentos apaixonados

sonho

dilacerados
pelas efemérides
da sofridão

quinta-feira, 6 de junho de 2013

chá

bebo com pressa
mas está demasiado quente
queima a boca
engulo
queima a garganta
persiste
e queima até ao estômago
toda uma viagem agoniante
uma dor aguda
mas passageira

escaldante episódio este
já lá vai um tempo
e continuo queimado
no meu interior
mas preparou-me
para futuras adversidades
que tive de engolir

cospes ou engoles?
agora engulo
pouco ou nada me afecta
pois estou queimado por dentro

segunda-feira, 3 de junho de 2013

sapataria

entro
e aprecio o cheiro da sapataria antiga
não estou aqui para comprar
mas para ser tomado pela soberba fragrância de cheiros
os materiais
pele, couro, cabedal, borracha
os químicos, ai os químicos
graxa, cola
a antiga sapataria não é grande
e o odor tomou o lugar
tomando-me a mim por sua vez
fez-me amor com o olfacto
cabrão
é algo quimérico
um amor que não existe
mas sempre existiu

terça-feira, 28 de maio de 2013

doce figura

encostado à parede do moinho
tomada pelo musgo
observo descrevendo

envolvida pela neblina
que dança com a vegetação
destacas-te como Aurora
dentro do teu vestido alvo
molhas timidamente o pé desnudo
no ribeiro fresco e musical
por fim
o cheiro da erva
lambida pelo orvalho
completa esta pintura
ao meus olhos
a neblina a água eu
os três rendidos
à tua doce figura
agora sim
poderia deixar de ver

quinta-feira, 23 de maio de 2013

arrogantes

arrogantes estas paredes que nos separam
vizinhos
não seremos todos donos do mesmo espaço?
espaço
esta mania da metafísica, horrenda

não partilhamos todos os mesmo pensamentos?
uma só vez
uma que seja, todos
somos feitos de pensamentos
do detalhe ao megalómano
do megalómano ao detalhe

somos feitos de detalhes
as moléculas
serão elas pensamentos?

terça-feira, 14 de maio de 2013

nomes

gravamos nossos nomes nas árvores
não é que elas tenham culpa de nós
ou de nos termos conhecido
mas
elas entendem

segunda-feira, 13 de maio de 2013

estátuas

passamos a correr
num frenesim
sem dar tempo de apreciar
quem por nós passa
com esta mania do entreolhar
o olhar dissipa-se
esta tal mania prende-nos o olhar
faz-nos estátuas
mas destas que teimam em não parar
damos mais valor ao que nos rodeia
esta massa que nos envolve
somos estátuas
de calcário rotineiro

segunda-feira, 29 de abril de 2013

estatísticas

qualquer dia
entro para as estatísticas
e nunca mais ninguém me apanha.
suicídio por negligência
do meu pensa.minto

quarta-feira, 10 de abril de 2013

casa em mim

guardo em mim
as vozes
todas as vozes do mundo
mas apenas duas se destacam
verbalizam
na minha mente
cuspindo
estes e outros temas
dando cor
ao interior
desta casa em mim
condenadas a viver
e conviver, presas
no meu ser
o meu seu
subterfúgio

segunda-feira, 25 de março de 2013

priceless hungry

I'll crave my claws
in your chest
open it
removing your heart carefully
I'll eat it
till my hungry for you
is satiated

at the end
with a big desire
your head I'll rip off
and display it
around my neck
like a priceless prize

sábado, 23 de março de 2013

cursed prints

my soul is rotten
inside out
is rotten
walking thru
the flowers go down
inside you I walk
leaving this cursed prints

sexta-feira, 22 de março de 2013

Reportagem do Lançamento do Livro "a árvore"

Reportagem do lançamento do livro de poesia "a árvore", no passado dia 15 de Março, na livraria Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, em Vila Real.

Vídeo do Jornal Universitário da UTAD, minuto 17:17

Prefácio
"Da sua vivência umbilical com o campo, presumo, nasce a paixão pelos temas relacionados com este, como a água, as árvores, a própria terra. A memória do autor explora ainda outros elementos da infância, como um veículo entre si e a sua poesia. Mas encontraremos aqui, também, temas de uma juventude atenta, como a problemática da droga, por exemplo. De todos, porém, realce-se o olhar tantas vezes inclinado sobre a condição humana. A humanidade dos gestos, dos sentimentos, da fragilidade dos seres, é uma constante nesta obra, tornado o autor tão atempadamente poeta como humanista."

Carlos Campaniço
Escritor

domingo, 6 de janeiro de 2013

plasticina

tenho saudades
do tempo
em que comia plasticina
e só o escuro me inquietava
esse fumo
exageradamente espesso
que mal me deixava respirar

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

cá no alto tudo normal

no alto das árvores
cá no alto
por entre folhas e ramos
os pássaros
o vento
o sol
tudo continua,
normal

lá em baixo
na terra húmida
a guerra
nevoeiro de lâminas
os decepados
os decapitados
por entre o talho
uma criança chora
um menino soldado
ferido de lágrimas
lavado em sangue
tudo continua,
normal

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

poço

és o poço que criaste
onde simplesmente nadas
nadas para não te afogares
nadas sem ter para onde ir
nadas para te manteres à tona
na esperança de que um dia
o poço seque

sábado, 24 de novembro de 2012

chorão

há quem diga que és triste
és mal amado
mal compreendido
julgam-te murcho
sem vida
acredito que és murcho
pelo peso dos bons momentos
que a tua sombra proporciona

não dás flor
não dás fruta
não faz mal
de ti
colhem-se aquelas memórias
de boas tardes passadas
a brincar
ou a arrulhar
com aquela menina

à tua sombra
imaginaram-se universos
criaram-se personagens
inventaram-se aviões
que te sobrevoaram
e depois partiram
para outros mundos
sem sair
da tua sombra primeva

começas a secar
formigas e outros invadiram-te
consomem-te do interior
se um dia secares por completo
até nada em ti estar verde
vou olhar-te com olhos de criança
e dizer
"é uma pena"
de mãos nos bolsos
irei embora
cheio do que de ti colhi

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

droga

não soubesse eu que estavas sobre o efeito de drogas, diria que a génese da tua existência a vês entediante, e buscas nesta droga algum fulgor, algum destédio, alguma improvisação, que droga esta? que te faz querer assim alguém, dizes que é a mais pura das drogas, porém não será a mais lícita, a mais legal, pois A desejas tão calorosamente, que puxas fogo a tudo o que te rodeia, elevando o Todo a Nada.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

cócegas

faço-me cócegas para rir e não chorar
peço-te cócegas para nos rirmos e não chorarmos

tens dedos firmes e decididos mas frágeis
na hora de me cocegares a barriga
enches-me a barriga de cócegas
apanho uma barrigada de cócegas
não aguento e urino-me
gozas mas também tu te urinas
unimo-nos nesta urina gargalhante
(urimo-nos) afogados no riso beligerante e tresloucado

sábado, 13 de outubro de 2012

tóxico e independentemente disso

sim és tu
meu cão da morte
devoras-me os amigos
afasta-os
leva-os contigo
pois eu já nem de mim
sou amigo
tornei-me veneno
tóxico e independentemente disso
ainda há quem
goste de mim assim,
não é meu amor?

a flor mais bela

dizem-te que és a flor mais bela
tens pesadelos com isso
e nos dias seguintes gozas
gozas com as pessoas que te chamam a flor mais bela
achas cliché, sentes que te tratam como tal
sentes-te um cliché
para tais pessoas cliché é bom
para ti torna-se pesadelo

mas,

quando estas sozinha no escuro do quarto
a chorar enquanto os teus pais se odeiam
lá fora
e tu, cá dentro
enrolada nos braços do medo
teu único amigo

sentes
não queres
mas sentes
a falta daqueles que te chamam
a flor mais bela

domingo, 7 de outubro de 2012

feronímia

sentado á secretária
vestindo um robe
apenas um robe
de órgão pendente
escrevo
sonetos desnudos
de todo e qualquer sentido
púb-l-ico
sonetos despornográficos
que falam de sorores
sedentas do amor
mas que guardam seus pudores
é a feronímia do ser
que só pensa em latejar
é apelativo ao pelativo
do fruto
a banana

domingo, 23 de setembro de 2012

casa em ti

chegaste ao ponto em que já não sabes o que é sair de casa

estás tão presa a ti, agarraste-te tanto a ti

já não sabes de que cor é a luz

já não sabes sequer se a luz tem cor

tudo o que vês é escuro, apenas os teus olhos

cinzentos esbatidos se reflectem no espelho da sala do teu consciente

na cave do teu subconsciente nunca entraste, tens medo

no sotão visitas as tuas recordações, e procuras sentimentos que perdeste

eles estão lá mas não os encontras

queres chorar, mas já não sabes como se faz

jardim

ao jardim vêm
os que procuram sentimentos
perdidos em visitas passadas

aqui ficam na noite
uivando cânticos
de olhos cintilantes

para ti são palavras soltas
musicadas, banais
são como farpas
nas mãos que levas ao peito

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

moedas para o barqueiro

quem á margem chega
já o vê na espera
o barqueiro guardador de almas
ao coberto de seu manto
tecido com as mais frias
e negras noites
não permite vislumbrar
qualquer feição
apenas se lhe conhecem as mãos
antigas e possantes
que seguram o velho remo
maior que a própria barca
de proa iluminada pela candeia
sejam bem finados vindos
contudo que tragam a moeda
da travessia moribunda
pobres daqueles pobres
que sem moeda
perambulam condenados
cem vazios anos
as apinhadas margens
e os gritos gemidos
dos defuntos doridos

são almas
almas para o barqueiro

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

cabeça de gaivota

sento-me, e aprecio no ar um corpo que voa, ondulante
apenas um corpo, porque, no lugar da cabeça uma gaivota
sim, daqui de onde vejo a cabeça tem a forma de gaivota
de asas bem abertas, patas fundidas com o pescoço do corpo
não grasna, muito menos fala, apenas se afasta rapidamente
apenas mais um de mente livre, cortando o vento em busca de algo

segunda-feira, 23 de julho de 2012

cova quente

é verão
e acendi a fogueira
onde repouso diante
ela, pálida a meu lado

cavei uma cova
geminada nas suas medidas
oitenta e seis
sessenta
oitenta e seis

ela, pálida mas aquecida
pela fogueira de verão

no espeto?
não, teu destino é ali
naquela cova
tem as tuas medidas
é a tua cara!

bebo-lhe mais um trago
desta bebida amarga
rotulada "ilusão"

sábado, 21 de julho de 2012

senhor nevoeiro

perdido
e por todos abandonado
calcorreia as serras
ao descer ao sopé de mais uma
vira-se para a contemplar
uma última vez
e vê
como uma mão que envolve
o alto em forma de concha

o senhor nevoeiro

descendo a serra
no seu encalço
até ao seu encontro

o errante
de hambres farto
tira-lhe o partido
e
cortando um naco
sacia sua fome
com um bife de nevoeiro
mais cru que a própria solidão

domingo, 6 de maio de 2012

deito-me

deito-me e levanto-me
faço-o todos os dias
mas naquele dia não
deixei-me ficar
não me levantei
fiquei a ouvir e a sentir
a vida á minha volta
ouvir e sentir
foram os meus verbos
primeiro foram os sons
depois senti...frio
ouvi e senti
o pulsar da vida
do quarto
da casa
apercebo-me que
oiço e sinto
o que está lá fora também
a casa
começo a ser a casa
agora faço isto
todos os dias
nunca mais me levantei
já perdi a conta
aos dias que aqui estou
a ouvir a sentir
a casa
a ser a casa
sinto que deambulo
pela casa...
como fantasma?
talvez
agora sou a casa
a casa que viu
meu corpo deitar
e não mais levantar
não sei o que sou
mas sei o que fui

lá do alto vê-se melhor

no alto da alta escada
vê-se melhor

bem lá no alto
onde na verdade
podemos tocar nas nuvens
tomar-lhes o gosto
saboreá-las até
serão mesmo de algodão doce?
podemos lá viver?
sem correr o risco
de ficar-mos demasiado doces
a ponto de a pele estalar
como o melão mais doce

podemos ir?
se a doçura não fizer doer a barriga...

terça-feira, 17 de abril de 2012

o poema

posso começar?
chama-se o poema
o poema
e é sobre
um poema
que foi pensado
há muito
muito tempo atrás
antes até
do próprio tempo
antes até de este
ter sido pensado
é um poema antigo
mais antigo
do que o próprio tempo
e o tempo
é bem antigo
mais antigo do que
as coisas todas
todas as coisas do mundo
sim este poema
fala do tempo
porque o tempo
pode ser um poema
o poema
mais antigo do que
todas as coisas do mundo

quinta-feira, 5 de abril de 2012

bife

divino prato
bife suculento
regado de molho
bem cremoso
acompanhado de arroz
e batatas fumegantes

não comi
mas vi comer

quando passava
roto e com frio
e parei
o meu carro de compras enferrujado
e olhei
pela janela do restaurante
"que delícia!"
repetia o meu estômago
sem parar
ao ver o bife
ter aquela relação
íntima com o garfo
e depois o garfo
ter aquela relação
íntima com o homem
e a fome
daquele homem
a ser saciada
com aquela orgia alimentar

cofio a barba
"tenho de ir
revirar mais
um caixote..."

quarta-feira, 4 de abril de 2012

potencial anarca

oiço
"olá colega"
olho e sorrio levemente
para o tipo
da secretária ao lado
por dentro
das minhas amarras
faço-lhe cara feia
"apetece-me cuspir-te
na cara
bem na cara"

mostrar as minhas
partes traseiras
em vez de sorrisos
ao chefe
que me observa
de olhar controlador
através do vidro
entro-lhe no escritório
arranco-lhe a espinha dorsal
acerto-lhe com ela na cara

:limito-me a imaginá-lo.

a lei
a ordem
as regras

de calças em baixo
tenho um olhar traseiro
sobre elas

sou um potencial anarquista
comprimido ao meu fatinho

o meu fatinho
é mais uma camisa de forças
na realidade

aqui continuo
sentado à secretária
ou à espera na fila
subjugado por ela
a sociedade.

segunda-feira, 5 de março de 2012

casulos

casulos de memórias
velhos, tão velhos
quanto o próprio tempo
esperam ser despertados
por estímulos presentes
esperam
até não o poderem mais
de tão gordos
estes casulos nostálgicos

e eclodem!
explosivamente rejubilantes!

pintando toda a mente
até aí vazia
escura
sombria
e sem cor

como a velha casa
que esconde, velha mobília
debaixo de lençóis
lençóis de esquecimento

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

a rua é larga

encontrão daqui
pisam-me dali
sem dar conta sou levado
pela torrente de corpos
hipnotizados quiçá telecomandados
por seres que habitam
estes monstros
de ferro e betão
que me rodeiam
e que me encurralam o Ser

a rua é larga
mas torna-se estreita
quando tanta gente a frequenta

la santa compaña

qualquer dia
vêm bater à porta
nem que sexa a morte

din que
batendo três veces
com a fouce
sendo o terceiro
com mais forza
é esse o sinal

com esta sequência
xa sabemos o que esperar
e baixando a cabeza
á fila de almas
que espera
pairando lá fóra
nos xuntamos
sem querer saber
o que dali esperar

não é a hora

uma velhota
bem velhota
mãos unidas, reza
ajoelhada, reza

reza para mais
não se aproximar
a morte

mas a morte
não se detém
e cada vez
mais perto

a velhota
reza, agora
reza, aos soluços

a morte
pára, não é
a hora da
velhota, a morte
a foice não afiou

embrião

baloiça na cadeira
sem saber que no ventre
o embrião da morte carrega
pútrido

e o silêncio

apenas cortado
pelo calmante
e bastante terapêutico
silvar do vento latente

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CONHECIDO O VENCEDOR DO CONCURSO ARTE ESCRITA DO CICLO CULTURAL DA UTAD

Porquificação

ornamentados
por personalidades,
humanos porquificados

não deixam de haver
aqueles menos interessados
que jogam outras vidas,
ao contrário
do patriarca que consente
e apoia a sarrabulhada
pautada por uma banda
afinada ao compasso
da fuga da manada
que corre ao desencontro
do canibal fratricídio

mas amam-se
nesta última ceia
irmãos desta pocilga,
a sociedade.


"O poema “Porquificação” foi o texto vencedor do concurso de Arte Escrita do Ciclo Cultural da UTAD, que foi divulgado ontem pelas 11 horas no Complexo Pedagógico.

Bruno Rodrigues, aluno do 3º ano de Línguas e Relações Empresariais, foi o vencedor deste concurso, que teve assim a oportunidade de adquirir uma obra á sua escolha do Pintor amarantino Fernando Barros.

A inspiração para a elaboração do poema centrou-se “na sociedade”, referiu Bruno Rodrigues.

O pintor amarantino Fernando Barros afirmou que queria principalmente “sentir o pulsar da juventude e o que pensam relativamente a esta área especifica arte, a pintura” por isso é que decidiu atribuir um quadro da sua obra ao vencedor."


http://cicloculturalutad.blogspot.com/2011/12/concurso-arte-escrita-porquificacao.html

http://akademia.comunicamos.org/cultura/conhecido-o-vencedor-do-concurso-arte-escrita/

http://www.utad.pt/pt/utadtv/jo/7dez2011.html

.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

o meu sangue

olho o tecto branco
um pequeno ponto vagueia
um mosquito
coço o braço
e penso na picada
que me deste ontem á noite
sacana és um sacana
tinha a janela
apenas um bocadinho aberta
mas mesmo assim conseguiste

gordo cheio de sangue

o meu sangue

sinto que partilhamos algo
tens uma parte de mim

o meu sangue

não
não te vou tentar matar
esborrachar contra a parede
com uma palmada ou chinelada
não porque
sujava a parede branca
e ela foi pintada há dias
mas também porque
seria um desperdício
todo esse sangue
que roubaste
sem o meu consentimento
espalhado numa mancha
na parede
seria um desperdício

o meu sangue

saudades desconhecidas

cabelos longos
escuros ondulantes
lábios finos
pele branca
uma luz alva emana

é possível
sentir saudades
de alguém
que na verdade
não se conhece?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

vai saber-me bem

o sol já se põe
sinto na cara
seus últimos raios,
fracos mas quentes,
despede-se á medida
que se esconde,
ao longe
na grande azinheira

passos cansados
de mais um dia
de labuta,
vou deixando
meu rasto a cada passo,
pelo caminho levantam-se
pequenas nuvens de poeira,
como se pisasse poças de pó
e estas se evaporassem no ar

a metros do monte
os cães correm a receber-me
de caudas alegres,
dão voltas e voltas
ás minhas pernas
numa dança
que quase me faz cair

enfio o braço pelo postigo
abro a porta
e pouso a sacola,
cheiro a comida:
minha mulher na cozinha?
apenas lembranças

atiro-me para a cama
de barriga vazia,
dormir vai saber-me bem

domingo, 23 de outubro de 2011

senhora dos cabelos italianos II

finos e elegantes cabelos
italianos, ondulantes,
sopra-lhes o vento
e dançam feitos
chorões frescos, numa
tarde domingueira,
neste parque
em que passeio, e
me lembro
da senhora dos cabelos italianos

senhora dos cabelos italianos I

nesta tarde domingueira
em que fumo
mais um cigarro,
na varanda de casa
lembro-me,
da senhora dos cabelos
italianos, revejo-os
aqui, no vento
fresco e reconfortante,
saboroso
de travo salgado
e cheiro a mar

o céu perdeu a cor

o céu mudou de cor
nem azul
tão-pouco cinzento

as pessoas
como que afectadas
pelo inesperado acontecimento
deambulam moles pelas ruas

o céu perdeu a cor
será este
o presságio da dor

sábado, 23 de julho de 2011

momentum

entornada no solo,
dormente,
são vitais
os únicos sinais
que se te distinguem,
és uma massa indefinida
e viva, respiras e pulsas
sim, não és pedra
mas estás fria

sábado, 11 de junho de 2011

a morte saiu à rua

a morte saiu à rua
paira sobre o chão
na penumbra
pairando pelas sombras
com o seu manto negro
se move
negro de desejos
medonhos e frios
rosna e geme sons
sons macabros e mórbidos

das suas mil bocas negras
delas a saliva negra
o veneno
é um rasto que deixa
ao passar
nas pedras da calçada
é um rasto que deixa
ao passar

as paredes gelam
os corações param
os gatos negros pulam
contentes...
procura-te a morte
o espectro negro
de tão maligno
podes fugir
também te podes esconder
mas onde a escuridão estiver
a morte estará
para a alma te absorver

non nobis

cavaleiros da Ordem
não seriam mais de vinte
na terra seca
ouvem-se os cascos

no vento fresco
os gritos do inimigo
não seriam mais de trinta
os ditos infiéis

galopes secos
gritos ferozes
ecoam pela planície
aproximam-se as duas frentes
chovem já flechas e lanças
do lado da Cruz

pontas afiadas como diamante
penetram a malha de aço
enterram-se nas carnes
corpos rendem-se ao chão

colide a cavalaria
e o som
como dois trovões
que explodem ao se tocarem

lâminas cortam
o ar pesado
capacetes desfeitos
crânios são abertos
gritos
a constatação da dor

corpos dilacerados
enfeitam o descampado
de flechas cravadas nos peitos
são como flores
são flores da morte
que dos peitos brotam

quinta-feira, 9 de junho de 2011

manhã

acordo,
esfrego os meus pequenos olhos
sentado na cama,
enquanto calço os chinelos,
vou à casa de banho e
olho-me no espelho,
desato a rir,
pareço um chinês,
olhos pequeninos,
bocejo e sinto a água
fresca na cara.

percorro o corredor
direito à cozinha,
na cozinha a minha mãe
prepara-me o pequeno-almoço,
reparo que toda ela
se vestiu de negro, e
apanhou o cabelo,
mãe não fazes isso
só quando alguém morre?
não respondeu, pensei,
o pai já não aparece em casa há um mês.

à tarde no parque

um casal troca juras de amor
um puto atira pedras junto ao lago

Um homem passa

leva as mãos nos bolsos
muito curvado
em passo acelerado
anda como se corresse
corre como se andasse
curvado como se a força do sol o curvasse
olhos colados no chão
perdidos em pensamentos silenciosos
corre a andar

pergunto-lhe
porque andas a correr?

terça-feira, 8 de março de 2011

hormonas danças

bacamarte
esperando a encantadora
de serpentes
que o fita com o olhar
já se escorrendo
quere-o deseja-o

toca-se

entre as pernas
como coração pulsante
segrega desejo

geme

'fode-me'
louco a agarra
a encosta á parede
ergue-a e a presenteia
por várias vezes
numa dança ritmada
e sincronizada

ali ficam
até que menos hormónicos
e sem fôlego
se deixam cair
liquidamente no chão

vermelho desamor

pincelas na mente
um quadro pintado a sangue
de teu coração esventrado
a paleta
a cor é única vermelho desamor

olhas atrás
sim sei que
careces de tudo isso
do feito e não feito
dito e não dito

pincelas um pouco mais
realça ali
não fodas o quadro
olha atrás um pouco mais
realça aí
não fodas também o quadro

domingo, 27 de fevereiro de 2011

monstrinhos

guardo monstrinhos
peludinhos, gordinhos e feinhos
dentro de caixinhas
no peito guardo monstrinhos
pequeninos monstrinhos
que fumam cigarrinhos

sensual inebriante

casal inebriado
pelo odor sensual
pelos dois emanado
embebido em embriaguez

desarrolhemos mais uma botella
em êxtase sexual
e o néctar conhece o solo
bebamos pois do chão
como gatos
nus e ronronantes

amam-se e consomem-se como animais
no chão agora também embriagado
pelos dois infectado
divinos seres sexuais

cães uivantes

sete cães
ali
deitados contando estrelas
sete reles cães uivantes
ali
deitados de barrigas inchadas
olhando o manto nocturno
de
barrigas gordas de sonhos
olham babados e inchados
de
barrigas cheias de nada

domingo, 6 de fevereiro de 2011

corredor

corredor que corre
apenas corre
sente o vento na cara
nos lábios um travo a natureza
emanado pela bondosa floresta
isso o faz sentir bem
poderia ali viver
a correr
tendo-a a ela
como única companhia
ela que o faz sentir pleno
que lhe alimenta o ser
bastando a presença dela
em seu redor

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

árvore

habitam no seu peito
medonhas criaturas que
lhe devoram as entranhas
são como máquinas
inquietas e estridentes

angustiado

crava as unhas no peito
abre-o com ardor
de lá uma pequena árvore sai
suas pequenas raízes
logo se apressam a agarrar
a terra macia
ele alimenta-a depois
ali sentado regando-a sempre
sempre que sente seus lábios secarem

tempo passa

depressa se torna uma árvore
uma árvore como já teve
frondosa e carregada de frutos
agora paciente resta-lhe esperar
esperar por Ela
que venha colher
os frutos renovados

domingo, 30 de janeiro de 2011

silenciosamente

jaz teu corpo na cama
silencioso porém vivo
levantas-te preguiçoso
caminhas a custo
custo tal que a sentes
iminente a cada passo moribundo
expulsas então teus fluidos bocejando
regressas
e deixas cair morto
teu corpo sobre a cama

sábado, 8 de janeiro de 2011

tenho fome

queixo apoiado nos braços cruzados
debruçado sobre a mesa de jantar
tenho fome...
já revistei o frigorífico:
leite azedo e queijo bolorento
tenho fome...
como mais uma bolacha
das que encontrei debaixo do sofá
continuo com fome...

o joão mia
e sobe para a mesa
tem fome...
toma joão uma bolacha
come-a tu diz ele
é esquisito o cabrão
mesmo com fome...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

sente

escrita sentida, mas sem sentido, para os sentidos

escrita para os sentidos, mas sentida, sem sentido

escrita sem sentido, mas sentida, para os sentidos